Tudo, menos amor

Love is a dog, from hell. From hell, you know Bandini? I take my camels, my man and fuck the rest. Im gonna take the shit under my shoes and live.

09:13
09:09

Fazia quase dois anos que já morava em hóteis, pousadas, móteis baratos de saídas de cidade e pequenos hóteis de hitchcook de beiras de estrada. Era bem verdade que não passava mais de uma semana em cada um desses lugares e que já tinha visto de tudo nessa vida: gente fodendo pela parede fina e o concreto saltando e tremendo a cabeceira da cama e os assoalhos quando eram de madeira, hóteis vazios e assombrados com passos no andar de cima e que o recepcionista parecia nunca ouvir ou se incomodar. Também ciganas gordas e estrábicas que queriam ler meu futuro por cinco dólares, depois dois dólares e mesmo assim quando eu rejeitava por cinquenta cents lançavam pragas e maldições.

- Que o céu caia sobre a sua cabeça sovina e mesquinha. Que caia mil vezes.
- Amém.
- Blasfêmia. Você vai direto para o inferno - e cuspiu bem no meu tênis nike velho e sujo.
- Minha senhora, o inferno é mais interessante que essa vida de merda. Se Deus quiser, ele me manda pra lá. - cuspiu outra vez e fez o sinal da cruz duas vezes falando uma lingua que na hora pareceu ser árabe.
Dessa vez eu ri e dei às costas mais uma vez às minhas chances de ter uma previsão boa para o meu futuro.

Esse era a minha deixa para a minha coragem regada a jaqueta preta de couro de La Paz e cigarro barato. Meu grande vá-se-foder para o todo meu passado de cicatrizes pela metade e descrença de quem já viveu uma grande porrada de experiências. Escrevia sobre tudo isso também.

O problema era que o mundo felizmente tinha ficado pequeno e eu tinha pisado em cada cidade dessa merda de mundo. Só quem chorava ainda eram os meus pneus que se despediam de cada lugar quando eu tinha enchido a cara e o saco do quarto, do recepcionista ou das mulheres e das putas.

O único escritor que nunca amaria ninguém ou coisa alguma. Era o meu segredo para o sucesso e ruína: pode anotar. E por tabela, também ninguém nunca me amaria, o que não era grande coisa ou problema porque eu não sentia nada mesmo.

(…)

Ana L. Alves in No name city no meu carro antigo. E meu romance sem fim. 

13:57
13:53

Clara, 

Procuro em meus dicionários e todas as lições de vida tudo que poderia tornar seu caminho mais fácil e percebo segredos horríveis que ninguém gostaria de ouvir. Nada, eu não aprendi e nunca aprenderemos nada. Fica sempre aquele gosto amargo na boca e o cinismo irreparável de dias que morrem e nascem e nos perseguem, e nos perseguirá, para sempre (mesmo que em sonhos). Escuto sua voz e você sorri muito. Aí você desliga, eu coloco Cat Power e penso um pouco mais em você. Você ainda sorri depois que a linha cai? Eu penso que não e tenho medo porque te quero tão bem. Nossa tristeza e sina irremediável que não tememos e pior, parecemos carregar feito armaduras de aço ao lado de emblemas e símbolos de nosso orgulho e conhecimento diante do mundo. Todo o resto das pessoas são um lixo, you know, e são chatas e não valem mesmo a pena. Mas fico pensando assim entre mil e outros pensamentos que morremos tanto e nos doamos tanto e nos entregamos tanto pra tanta gente que não quer e não merece e são esse lixo de que tanto conversamos entre tiradas e sarcamos e cuspidas ao concreto.

Como é que a gente pode ser tão burra-masoquista-derrotista-e-entreguista dessa forma? Quem foi que nos ensinou a gostar tanto assim de quinas de porta e pés de mesa e muros tão altos? Como é que nos tratamos, que deixamos de perseguir os erros e sermos tão viciadas assim em nossas mentiras de ilusão?

Eu não sei. A única coisa que tenho certeza é que sabemos onde nossos planos furados terminam e a dor parece ser um convite para o nosso presente tão esperado. Outros dois sofrimentos que se transformaram em três ou cinco textos, nada tão grande assim. E logo outra perseguição infalível para o nosso amadorismo sem fim. Porque não há nada mais bonito que entrar no ringue preparado para apanhar. Torço um futuro promissor para você, feito Rocky Marciano com 49 lutas e 49 vitórias sendo 43 por nocaute. Invicto, inveterado, invencível feito nosso peito de aço acostumado a nossas lutas incansáveis em que levantamos do tablado 1 segundo antes do apito do juiz. 

Aí eu fumo meus cigarros, fico tonta e minha pressão cai. Fico olhando o teto e lembro o quanto precisamos e é fundamental cair assim, na rua, no ringue, do meu décimo andar ou na cama mesmo, afundando e sendo sugada para o fundo como se fosse o oceano Índico. 

Só não queria esse meu destino para você. E te pergunto: você já conseguiu se aceitar? Quando vai conseguir dizer para os outros o que você realmente é? Eu quero dizer, eu ainda tremo quando me perguntam quando sai o meu primeiro livro. Fico quieta e não tenho pressa em responder “Talvez nunca.”

Talvez nunca Clara. Só temos que aceitar essa possibilidade de que talvez amanhã ou talvez nunca. E let it go. Não deixar isso pesar. Afundar por um cigarro, pelo vinho barato que não caiu bem, pela briga com Leonardo ou por nossos planos mesquinhos de sofrer pelo corte que continuamos pressionando só para ver o sangue escorrer. 

Minha boca amarga e ferina de sempre. Com um belo “Vá á merda.” Meu nariz escorre lembranças e pó do último sábado que ainda terei com você. E será mais fácil. Tudo será mais simples e free. 

Um dia nosso livro sai. (Ou talvez nunca.)

Valentina Rodrigues

13:29

Agora a minha boca tocava a sua coxa e as suas mãos tocavam o meu peito. Os gatos miavam nos telhados sobre uma época em que os lobos subiam em nossos muros. Nossos pensamentos pairavam pesadamente por todo o quarto azul pintado a mão e as paredes se fechavam as nossas costas. Nosso único refúgio era a cama que se abria de acordo com a posição dos corpos. Eu tentava não pensar em Pedro, Ana e tudo o que tinha acontecido desde que atravessamos a França.

Ela olhou para mim com aqueles grandes olhos cinzas que ela achava serem desinteressantes e ordinários.

- Isso passa Sebastian? 

Eu tentei ser verdadeiro: “Eu não sei, mas eu gostaria que sim. 

Era assim que íamos dormir com os lábios tocados, nos despedindo do dia com nossos olhos ordinários, sussurrando segredos inconfessáveis e terríveis junto da esperança de noites de entrega e solidão.

Tudo isso era a nossa grande dor repartida, os dias que não voltam mais. 

Valentina Rodrigues em Só nos falta a redenção.

11:53

insubmissa:

“Valentina, sinto sua falta baby. Eu sei, eu sei que você tá ocupada com algo que realmente importa, e espero que saiba que tô aqui de longe torcendo pra você lidar com isso muito melhor do que lidaria (o que não é lá tão difícil). Me perdoa o melodrama barato, mas gosto tanto de você. Não pelo teu talento arrancado de noites tão densas quanto a gente, não pela tua voz que é paradoxal à tua força, não por você insistir em gritar pra mim sobre uma grandeza que nem tenho nem sei se quero, nem por você me entender sem eu precisar me explicar. Gosto por gostar, vício estúpido de porquês. Eu sinto sua falta porque em todo esse tempo que passei aqui ainda não aceitei por inteiro minha sina. Ainda não aceito esses momentos em que escapo de mim e me vejo sozinha na minha cama, no meu quarto, na droga da casa dos meus pais, que ainda é a única que tenho (será que você já conseguiu a sua?), nessa cidade esvaziada pelos feriados hipócritas, nesse país de valores tortos, nesse mundo pequeno. A gente é tão pó. Não gosto de me ver assim, não gosto de escapar de mim e enxergar o átomo que sou e somos, mas com você me sinto grande. Com você aceito a dor, e percebo que é tudo que tenho. E se é tudo que tenho talvez devesse ter. Sinto sua falta porque ninguém me vê assim, e eu estou exausta de máscaras e bandaids, de ficar me serrando pra não ferir ninguém com minhas sobras. Quando você some muito fica difícil achar que tem algum valor nessas lágrimas e crises beirando o insuportável. Perdoa de novo o melodrama, tenho bebido pouco, os risos altos estão escassos. Mal escrevo, e quando escrevo, escrevo mal. Não há nada a ser dito, mas não há silêncio em mim. Cada vez mais sei viver menos baby, não sou pra esse mundo, tudo me dói, e acho essas dores abstratas um tanto quanto patéticas. Rio das minhas fraquezas e choro da minha crueldade comigo. É uma merda de um labirinto dentro de mim, e eu só queria nunca ter entrado. Te escrevo sem pensar, você sabe, daí sai assim, feito fala de bêbado, sem nexo e talento. Se eu já não disse isso hoje: sinto sua falta baby. Que você tenha resistido muito melhor do que eu.”

Clara D.

18:34
18:33"she knows the worst thing about me and it’s okay." —

Meet Joe Black (via eddievalenzuela

)

(via drunkrascal)

18:21

O meio entre tudo que sou e você e tudo que não somos. Tudo que não concordamos, tudo que fica no não-dito, tudo que gritamos enquanto atiramos pratos e copos e mesas e quadros. O meio de tudo que nos divide e separa enquanto a vida continua empurrando trens, aviões e nós continuamos nos chocando. O meio que se confunde em nossas mentes como precipícios mortais ou divisas pequenas como pequenos barrancos em que não somos capazes de pular.

Eu atiro cartas e você manda garrafas pelas ondas. Eu chamo seu nome e você estica o braço, carrega nos ombros pedaços de madeira, tenta construir nossas pontes, nossos barcos que continuam indo á deriva.

Ninguém sobrevive além da nossa individualidade febril e vital. Ninguém além da nossa solidão disfarçada, dos nossos medos velados, da nossa covardia mascarada. O meio de tudo que se alcança em um passo, mas que teimamos em aumentar abocanhando a terra, apagando os sinais de fumaça, passando os pés e as picaretas, abrindo as covas que choram esfarelando a nossa separação eminente. 

Somos tão distantes e tão tocáveis. Somos tão pequenos, somos tão perdidos, tão carentes da lua, de sonhos, de pais, de pipas e infância e amigos que precisavam nos empurrar um pouco para a a queda - nosso voo eterno ensaiado, a nossa promessa de tranquilidade - em que a lua bateria em nossos corpos de tão perto. O tropeço infalível para a vida e morte, nossos deuses que trocam de nome se fantasiando de amor.

Essa é a nossa espera. Nosso papo furado de que grandes coisas estão sempre, prestes a acontecer.

É a nossa vida em prestação, é o meu nome ao lado do teu gravado nas pedras que caem entre os nossos meios e que também somos nós. É o meu desespero e também o meu desleixo.É o deixa-para-lá e o sinto-tanto-a-sua-falta.

É a nossa cama dividida pelo peso dos anos e dos corpos. Sinto-tanto-a-tua-falta.

E sei que também sente a minha. Mas saudade não é algo palpável, para o nosso azar.

Valentina Rodrigues

17:37